Paralogismos iniciais

18/11/2018

A chamada "Era Moderna dos Discos Voadores", iniciada a 24 de junho de 1947, surgiu por conta de um paralogismo. Naquela fatídica terça-feira à tarde, como já é bem conhecido dos entusiastas da Ufologia, o piloto civil norte-americano Kenneth Arnold, viajando com seu monoplano Callair branco e vermelho, se aproximava do Monte Rainier (Washington) quando observou um brilho na direção Norte. Fixando seu olhar naquela direção, observou cerca de nove aeronaves em formação voando para Sul. Contudo, tais objetos, que se deslocavam em altíssima velocidade - cerca de 2.100 km/h -, não eram "discos voadores". O formato dos artefatos foi comparado a uma Lua Crescente, tendo cada um cerca de 15 metros de comprimento e 10 m de largura. Mas, afinal, como e porque surgiu a terminologia "disco voador"?

Se realizarmos um resgate histórico nesta questão, veremos que o piloto Arnold aterrissou em Yakima, Washington, 1 hora e 30 minutos após sua experiência, para abastecer seu avião. Acabou contando o que tinha visto a outros pilotos, como qualquer um faria naquela situação. A história se espalhou de maneira vertiginosa, e, quando Arnold pousou em Pendleton, Oregon, é recepcionado por dezenas de jornalistas que já sabiam do fato. Ao dar uma entrevista aos jornalistas lá presentes, teve a infelicidade (ou felicidade) de tentar explicar como os objetos voavam, nas palavras dele voavam "como um pires atirado sobre a água". 

O repórter Bill Becquette - um dos jornalistas - enviou o relato à Associated Press que, não se sabe se intencionalmente ou não, transmudou a frase para apenas "pires voador" (flying saucer)¹. Em tradução ao nosso português, ficou "disco voador". 

Eis aí, uma rápida explicação histórica do primeiro equívoco sobre os fenômenos vistos no céu. O segundo equívoco é amplamente divulgado até mesmo por uma grande gama dos ufólogos, que alegam que a Ufologia surgiu na tarde de 24 de junho de 1947. Nada mais falso, uma vez que, o termo UFO ( Unidientified Flying Object - Objeto Voador Não Identificado) foi criado, com toda a certeza - já que não há data exata -, no início de 1951 por Edward J. Ruppelt, engenheiro aeronauta e capitão da Força Aérea dos Estados Unidos. A propósito, vejamos esta assertiva constatada na página 18 do livro O relatório sobre objetos voadores não identificados² escrito pelo próprio Ruppelt e publicado em 1956:

"Eu conheço a história completa sobre discos voadores e sei que isso nunca foi dito antes, porque eu organizei e era chefe do Projeto Blue Force da Força Aérea, o projeto especial criado para investigar e analisar objetos voadores não identificados, ou relatos de OVNIs. (UFO é o termo oficial que eu criei para substituir as palavras 'discos voadores')"

Por fim, percebemos que o objetivo do célebre engenheiro Ruppelt foi substituir a terminologia ambígua que "disco voador" gerava, pois, era utilizado erroneamente, desde 1947 para nomear qualquer coisa vista no céu que para o(s) observador(es) não tivesse classificação aparente de origem. Desde uma luz vermelha a um objeto esférico, tudo era chamado de "disco voador".

O objetivo para a criação do termo UFO/OVNI, no início de 1951, se deu após o capitão Ruppelt se inteirar da questão sobre os "discos voadores" e, em seguida, ser designado para ser o primeiro diretor do Projeto Blue Book (Projeto conduzido pela Força Aérea dos Estados Unidos para investigar os relatos e o próprio fenômeno dos objetos voadores não identificados. O Projeto permaneceu na ativa até janeiro de 1970).

¹: Exemplo à época: New York Times, 4 de julho de 1947, pg. 26

²: Edward J. Ruppelt. The Report on Unidentified Flying Objects. London: Victor Gollancz, 1956